segunda-feira, outubro 11, 2010

Um caminho sagrado

Há pouco menos de um ano, minha colega Sonia Pires fez uma viagem diferente. Ao invés de praias, shoppings e cultura urbana no geral, minha amiga preferiu uma caminhada. E um detalhe: Não era qualquer caminhada!


Realizou um sonho: O de trilhar o Caminho de Santiago de Compostela. Lugar, este que vai muito além de conhecer países, povos e seus costumes. É um lugar sagrado e ao mesmo tempo um encontro para consigo mesmo. Santiago de Compostela fica na Espanha; capital da Galiza. Pessoas do mundo inteiro buscam fazer este caminho que foi realizado por Santiago, um dos apóstolos de Jesus Cristo e que teve sua vida seifada devido a perseguição ao Cristianismo. Com a sua morte, os apóstolos fizeram o traslado para que o corpo de Santiago fosse enterrado no lugar em que ele peregrinou. Diz a história que depois de ser enterrado neste local, houve uma chuva de estrelas e a este fato, foi considerado um milagre fazendo com que fosse construido uma catedral. A Basílica de Santiago de Compostela é o ponto final para quem faz a rota do Caminho de Santiago. Nesta igreja há um incenseiro gigante que exala um perfume encantador. Este caminho está na história já há doze séculos. Não há peregrino que não se emocione ao contar sobre a experiência. Muda a vida; muda a concepção de enxergar própria vida e foi a isto que minha colega foi buscar: Ela mesma.
E esta peregrinação tem uma dinâmica que envolve não só por sua dimensão simbólica mas também por relações sociais, econômicas, políticas e religiosas que giram em torno de si. A longa jornada envolve não só o lado físico como o espiritual. É uma experiência única e de uma fusão que levam a todos uma espécie de confusão da realidade com a vida em si. Segundo Sônia, durante a caminhada você acaba se ouvindo. Sim! Se ouvindo. Você se ouve. Sim! Você se ouve. Você ouve aquilo que nunca digeriu como bonito ou mágico.... Hoje resolvi falar sobre isto pois toda vez que minha colega conta histórias desta viagem fico pensando nas besterias que atrelamos no dia a dia e valorizamos em encafifar sendo que, esquecemos, por total, as maravilhas do mundo que são tão simples e belas como um abraço, um sorriso, um ato de respirar.

Abaixo, deixei o seu próprio relato.

" Fiz o Caminho de São Tiago de Compostela em junho/2009 e hoje bateu uma nostalgia ..fiquei lembrando que a gente passa por uma confusão de sentimentos muito grande. Tudo é muito intenso durante a caminhada. Mesmo que se faça com um grupo, a caminhada é solitária, porque o ritmo de cada um precisa ser respeitado. São horas e horas caminhando num cenário lindo(mas tão lindo mesmo!), te leva a reflexão da vida, das decisões, o rumo que tomamos, as lembranças...Enfim, tudo isto aflora.
É ouvir; ouvir sons ue não se sabia que existiam. O silêncio no início assustava. Comecei a ouvir o meu coração, a me sentir, a me ouvir! Muito louco! Mas, bem real. Fora o fato de ouvir a natureza que no dia a dia a gente nem percebe. Passei por muitos momentos de tristeza, por muitos momentos de alegria, por toda uma gama de sentimentos contraditórios. E isto o que faz essa caminhada uma aventura única e inesquecível. Existe ainda a questão física que o ato de caminhar faz. Muitos quilômetros todos os dias te mantém num piquê que vai da excitação a euforia, ao mesmo tempo que o cansaço é enorme e dolorido. Fiz várias bolhas nos pés, o que me impediu de caminhar por dois dias, quebrei algumas unhas do pé - coisas normais, inclusive - que acontecem com quase todos lá. Existe uma solidariedade enorme entre os peregrinos! A energia que a gente sente não é apenas impressão; acho que o grande número de pessoas com o mesmo objetivo faz com que se concentre uma energia muito positiva em todo o caminho. O que é bem legal é que se conhece pessoas de todos os lugares do mundo. Senti falta de não falar inglês. Perde-se muito em conhecer mais as pessoas. O espanhol não é tão fácil como imaginamos, é bem diferente do que falam no Uruguai, Argentina, e eles não entendem nada de português. O que mais encanta no Caminho de Santiago de Compostela são - sem sombra de dúvidas - as igrejas, os mosteiros, e a arquitetura medieval. Cada etapa é repleta de verdadeiras obras primas da arte antiga. Os espanhóis são bem secos no tratamento que dispensam aos turistas. O barato é quando a gente diz que é brasileiro! Muitas vezes se recebe tratamento diferente e é aí que a gente vê que o Brasil é bem visto lá fora, mesmo que ainda seja pelo futebol, pelo carnaval... Eles tem a idéia do Brasil como um povo bem festeiro...hehehehehe Uma coisa que achei engraçado é que eles tem uns horários de trabalho bem malucos, começam a trabalhar tarde(pelas 10 horas) e tem a hora da sesta. Por volta do meio-dia fecha todo o comércio e reabre a partir das duas ou tres horas da tarde. São bem folgados...hehehehe. Em muitos lugares não dá para contar com o café da manhã, porque como se inicia cedo a caminhada, encontra-se tudo fechado. Alguns albergues servem o café, ou tem máquinas de café e de alimentos para a manhã. Outros não tem nada disso, então é preciso comprar na véspera. Importante levar sempre água e barrinha de cereal, chocolate, as vezes, durante o trajeto é preciso repor energia. As frutas são muito boas lá, principalmente as cerejas....como eu gostei das cerejas... E a comida é excelente!!! Eles tem pratos fartos!!! Tem o primeiro prato, o segundo prato, a sobremesa e sempre o vinho e o pão (almoço ou jantar do peregrino - varia de 8 a 13 euros, dependendo do lugar)"
Sônia Pires -
http://soniapires.blogspot.com/

Um comentário:

Eduardo Montanari disse...

Dos sonhos que tenho, poucos, um deles é fazer esse caminho. Deve ser absurdamente libertador.