sexta-feira, outubro 03, 2008

A Mentira

Estes são os dois comentários do Paulo Sant'Ana... Tem gente que me pergunta porque eu não ando escrevendo...até escrevo gente...mas tanta coisa do coração e pessoal...que filtro e não publico nada... Acima aí vocês verão uma de coração... mas agora vou citar esta do meu escritor polêmico... Paulo Sant'Ana... para isto ele tem um dom.... E ando de saco cheio de mentiras... a isto ... além da hipocrisia... deixo mais este belo texto deste gênio jornalista....

"Lendo a entrevista com Aguinaldo Silva, autor de Duas Caras, no Caderno Donna, refleti que todas as pessoas, todas, inclusive eu, mentimos.
Ou melhor, vivemos mentindo.
A mentira é, pois, um componente inafastável das nossas relações.
A maior parte das mentiras que pronunciamos durante o dia, na verdade não pronunciamos: ficam sepultadas no nosso silêncio.
São as coisas que gostaríamos de dizer - ou deveríamos dizer - e consideramos aconselhável não dizer. Por diversos motivos.
Vem-nos a idéia, clara e estuante, mas ela "esbarra no molambo da nossa língua paralítica". Deixamos para dizer outra vez ou resta para sempre soterrada em nossa cabeça.
Quase sempre, essas verdades que sonegamos causariam incômodo irremediável.
Há o silêncio mentiroso em que o maior favorecido dele não somos nós, são as pessoas com quem estamos tratando: se disséssemos o que estamos pensando, iríamos ferir os nossos interlocutores, empurramos com a barriga as nossas verdades, à espera de uma melhor ocasião ou de que desapareça o motivo para a nossa colocação.
Entre todas as mentiras silenciosas, a maior delas é o segredo. Carregamo-lo às vezes durante toda nossa vida como um fardo, as outras pessoas todas do nosso redor ficam privadas daquela verdade que nos queima e envergonha. E cuja não-revelação nos favorece.E finalmente as mentiras sonoras ou gestuais, aquelas que falamos ou gesticulamos. O que é sim, dizemos não; o que é não, dizemos sim.
São, por assim dizer, as mentiras do nosso interesse, por conveniência as pronunciamos, livrando-nos de uma responsabilidade ou de uma incomodação.
Na semana passada, a ministra Dilma Rousseff deu-nos conta brilhantemente de mentiras que ela pronunciou sob tortura, declarando que se não as pronunciasse poria em risco ou eliminaria vidas de seus companheiros de insurgência.
A mentira, portanto, tem também esse dom: se não a pronunciarmos, a verdade nos causará um dano imenso ou leve, é melhor que finquemos pé nela e nos livremos da atrapalhação.
Eu fiquei pensando ontem que a mentira é lícita. Nos 10 mandamentos, não há qualquer menção de que a mentira seja uma infração contra a lei de Deus.
Entre os sete pecados capitais, a ira, a gula, a inveja, a luxúria, o orgulho, a preguiça e a avareza, nem por colateralidade é mencionada a mentira.
Se nesses dois códigos importantes que norteiam a conduta humana não é mencionada a mentira, então é porque ela é consentida.
Só há um caso de punição para a mentira: é quando quem a pronuncia está sob juramento na Justiça: incorre então em falso testemunho.
No entanto, o princípio de que ao réu é permitido mentir, visando a que não se o obrigue a produzir prova contra si, inspirado em um ensinamento de São Tomás de Aquino, inspira que às pessoas comuns não é exigível que falem a verdade quando isso as prejudique.
Deve ser por isso que as pessoas saíram por aí a mentir deslavadamente. Para não prejudicarem a si próprias e para não prejudicar aos outros.
A mentira, portanto, é um truque de comportamento que visa a uma vantagem circunstancial de quem a emite, para quem a verdade traria transtornos.
E também é um recurso de extraordinária valia na vida humana: indiscutivelmente, um mundo em que as relações humanas fossem movidas só pela verdade se caracterizaria por confrontos assustadores. "
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